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STUPID OR NOT KIND OF MANIFESTO #01

Look good. Stop worrying just on looking good. Start being good. Being intelligent makes you beautiful. Being intelligent makes you sadder. Don’t joke on bodybuilders in public. Fast food makes you die slowly. If you live like there’s no tomorrow there will probably be none. Don’t let your wrinkles spoil your youth. Trust in strangers until otherwise. Don’t trust in strangers with knifes. Know more about yourself than you know about socialites. Start. Stop. Avoid mistakes. Learn from errors. Clichés exist for a reason. Writing a manifesto makes you feel powerful. It isn’t always the butler. Don’t kill the butterflies. Kill the butter. Fly. Stupid or not Francisco Salgado Ré 02 of May, 2014

TEATRO DE SOMBRAS

Há uma outra cidade revelada pela noite e descoberta por corpos ausentes e silêncios quebrados. As ruas são o cenário de encenações turvas e o chão é palco pisado pelos passos cambaleantes de actores que levam a cena peças efémeras de um só acto. A noite encerra ciclicamente um ritual pagão de personagens anónimas que se mascaram com vestes brilhantes e se pintam com cores que disfarçam os corpos. As personagens nocturnas têm medo do escuro e fogem por isso da sombra que as oculta. Não sabem contudo que são transparentes à luz. No fim da noite as marionetas deste teatro de sombras vão repousar inanimadas nas soleiras ou desaparecer no escuro levadas por cordéis finos presos às estrelas.

MEMÓRIA DAS COISAS

Disse que eram apenas coisas. Na altura quis acreditar que sim. Um pouco sem pensar. Como quem toma uma aspirina. Hoje sei que as coisas são apenas coisas até deixarem de o ser. Até serem envolvidas em nostalgia e trazidas pelas memórias. Os objectos são uma coisa apenas até determinado momento. São apenas objectos quando são apartidários de qualquer acontecimento relevante. Quando a sua existência simples de coisas inócuas não se cruza com os momentos. Assim, a determinado momento, tornam-se parte do corpo, carregados de historias resultantes da partilha dos dias. A convivência com os objectos faz-se muitas vezes inconscientemente, até que a certo ponto eles são o veículo que nos desperta para memórias particulares e nos fazem lembrar momentos especiais e detalhes que, no seu momento, poderão até ter sido considerados irrelevantes. Que fique claro que esta não é uma capacidade dos objectos. Eles não são assim por vontade própria. São as pessoas que tornam os objectos coisas do co...

INSATISFAÇÃO

Se está frio é porque está frio. Se está calor é porque está calor. Se é Verão é porque é Verão. Se é Inverno é porque é Inverno. A Primavera é porque não houve. O Outono é porque não. Se já não é o que era é porque antigamente é que era bom. Se antigamente era mau agora não é suficiente. Se está sozinho é porque está sozinho. Se está gente é gente a mais. Se o governo é de direita é porque é capitalista. Se o governo é de esquerda é porque é radical. Se não há dinheiro é porque é da crise. Se há dinheiro é porque não. Se não há trabalho é porque não há. Se há é porque é uma canseira. Se há rojões é porque quer bifanas. Se há bifanas é porque estão insossas . Se se vai andando é porque assim-assim. E a família é porque a sogra e os filhos e os domingos e tal. O tempo é o maior democrata. O tempo tem muita paciência. Há-de chegar o tempo…

Coisas que inbernam

Pelo que percebi, há uma panóplia de animais que hibernam mas a coisa não é linear como eu pensava. Eu imaginava que eram os ursos e as raposas que ficavam quietinhos a nanar nas suas tocas durante longos meses de inverno. Mas, claro está, a natureza é coisa complexa e tratou de fazer com que muitos mais animais hibernassem, em alturas diferentes e por distintas razões que ela e eles lá sabem. Por exemplo, há animais de sangue quente e de sangue frio a hibernar. Há deles que hibernam por causa do frio, outros por causa da escassez de alimento e outros para se esconderem de predadores. Curioso que os ursos têm uma hibernação falsa, pois são letárgicos e levantam-se para papar. Eles há os que dormem meses a fio e outros que se levantam para comer uma refeição leve, beber um golinho de água, evacuar tudo e voltar para a toca. Ele há cobras, lagartos, rãs, ouriços, morcegos, texugos, andorinhas, ursos, gambás, tartarugas, doninhas, castores, ratos, cágados, joaninhas, esquilos, ma...

log entry: de onde vêm o dinheiro?

As pessoas têm uma relação estranha com o dinheiro. Tudo gira à volta do pilim. Ele é preciso para pôr na mesa a comidinha, para comprar roupinha pró menino, para pagar a prestação da casa e do carro e da televisão e da assinatura da tv cabo e o lar dos avós. A malta recebe ao fim do mês, o tal salário, que é o resultado do trabalho traduzido num número no extracto em papel, mas não sabem de onde vem. Sabem que, se quiserem, podem ir ao banco levantar tudo, e que as notas que recolhem foram impressas e agrupadas em molhinhos com elástico por ordem de valor, como se vê nas malas dos bandidos nos filmes. Mas de onde vem o guito, a cheta, a massa, o chavo, o caroço, os cobres, a pataca, o vintém, o tostão, a pasta, o pilim, o cacau, o papel, o carcanhol, o arame? Quem inventou a coisa? Eu percebo que é mais fácil do que andar com os bolsos cheios de batatas para trocar por tabaco na esquina. Até porque ao preço a que o maço está, tinham de andar com troleis de batata e sacos delas a tir...