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log entry: "marco paulo o pensador" por joão macdonald na 365

Citemos Marco Paulo, em recente entrevista a uma revista popular: «O pimba veio abandalhar a música». Surpreendente afirmação, vinda de quem vem. Dir-se-á: mas quem é Marco Paulo para dizer semelhante coisa, ele que é o sumo pontíficie do pimba? Pois Marco Paulo disse-o precisamente por ser o sumo pontíficie do pimba, tal como Eurico de Melo é a reserva moral do PSD. Estranhos tempos, estes em que vivemos.
Na recente história da música popular portuguesa, Marco Paulo é um nome que se cumpriu, e cumpriu-se à custa de um cioso jogo de cintura, inimitável mas canónico, distante mas tão próximo, primário mas harmonioso. A sua história é heróica: vindo do Portugal profundo, subiu aos holofotes, foi romântico enquanto era preciso ser romântico (uma espécie de Tony de Matos das donas-de-casa dos anos 80), Herman consagrou-o (Serafim é nome de anjo e Saudade é nome de sentimento), a televisão deu-lhe um espaço nobre, Marco em si condensou uma luta cancerosa comum a tantos que nos são queridos e venceu-a, e hoje possui uma imagem impoluta.
Ora, por causa disto tudo, que será heróico para quem o quiser, mas não certamente para outros, Marco Paulo dá-se ao direito de teorizar sobre o pimba. É, portanto, um discurso meta-pimba. Essa é a síntese fulcral do estado e significado da música pimba: auferiu a si mesma uma condição transcendental. Marco Paulo tornou-se num opinion-maker paradoxal. O pimba ataca o pimba, ou seja, o pimba tem uma opinião de não-pimba, colocando-se do lado dos que pensam, por oposição aos que desconfiam de quem pensa. Onde é que, afinal, está exactamente Marco Paulo? Ele está no meio de nós.

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